quinta-feira, 19 de agosto de 2010

A Prece da Madrugada


Tenho o hábito de escrever sobre acontecimentos que marcaram meu passado, pessoas e lugares que de alguma forma me influenciaram. Desta vez, quero focar minhas letras numa pessoa ímpar: minha mãe. Ela nada me cobra, nada exige, tudo pede, quase suplica. Não falo pelos meus irmãos, que eles também passem por isso. Dificilmente serei capaz de agradecê-la o suficiente, mas tentarei.
São 4h:40 da madrugada de um sábado, partes metálicas de minha jaqueta de couro brilham no escuro, o barulho de meus passos pelo corredor é quase imperceptível , menos é claro para minha mãe. Minha cabeça doe um pouco, o cheiro do cigarro esta na roupa e o efeito da bebida ainda persiste; é neste momento que ouço uma voz trêmula e chorosa que de longe faz uma prece. Minha mãe conversa com Deus, o assunto sou eu.

Era um garoto confuso, escolhido por Deus, mas distante do caminho. Minha mãe encontrava forças e de joelhos protegia meus passos. Uma mulher que pouco conheceu da vida além dos bancos da igreja conseguia levar meu nome até o trono de Deus. E Ele a ouvia atentamente. Paro por um instante na porta do meu quarto, ficava nos fundos para que estrategicamente pudesse chegar tarde sem fazer barulho, esforcei-me para ouvir sua oração, não consegui. Algumas noites a cena se repetiu, a intimidade daquela conversa me incomodava e algo penetrava em meu coração. Era uma terça feira cinzenta, havia entrado numa igreja com a fachada de pedras de cor marrom, desconhecida e distante. Ouvi atentamente aquele pastor falando. Meu coração se aqueceu e naquele momento lembrei de minha mãe. Certo momento da mensagem, o pastor disse:

“Não importa se as nuvens estão escuras no céu, atrás delas sempre haverá o sol”


Graças a Deus, conheci num lugar inusitado uma pessoa especial que me conduziu a decisão de voltar para o lugar que nunca deveria ter saído. Mas foi minha mãe que nunca me deixou esquecer aonde era o meu lugar. A vida que eu levava não era penosa e nem desagradável, tinha o respeito da “galera”, tinha dinheiro e freqüentava bons lugares, porém, quando acordava no dia seguinte, refletia até quando aquilo seria bom, nunca era o suficiente. Andei muito perto dos perigos da noite, conheci pessoas que podiam destruir meus princípios. Associe-me com outras que não prestavam e meus relacionamentos amorosos eram superficiais. Meu céu estava nublado, vivia na sombra do pecado mas depois de cada noitada a voz de minha mãe me iluminava. Ela era meu sol.

Minha mãe, respeitada na sua arte de educar, sempre presente na família. Uma moça do interior, com princípios e valores cristãos. Ensinou que mulher de verdade é fiel ao matrimônio, que filha de verdade cuida da mãe até a morte (mesmo sendo maltratada). Não tenho lembranças de ouvir palavras torpes de sua boca, de maus tratos ou de acusações contra ela. Minha mãe. Sofri com ela em alguns momentos, fui seu apoio em outros, mas nunca consegui ajudá-la o suficiente.

Minha mãe. Mulher ímpar, exemplo de caráter e dignidade, mulher de Deus.

Minha mãe, amo você. Obrigado por tudo.





































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