Ouça uma música enquanto lê...
Quando se trabalha com vendas, as viagens são frequentes e por vezes inusitadas. Meu destino era Cuiabá no Mato Grosso e o horário do vôo era ingrato (3:30 AM), evidentemente, por causa do preço da passagem. Vou tentar com detalhes descrever esta experiência.
Cheguei no Aeroporto ás 10:30PM, quem me levou foi minha esposa por isso o horário tão antecipado ( não queria que ela voltasse para casa muito tarde), já havia jantado por isso não me preocupei em me alimentar. Ledo engano. Fiz meu check-inn sem problemas e fiquei com apenas com minha bagagem de mão de 5kg, meu inseparável lap-top, minha carteira e alguns documentos importantes. Até aqui tudo ótimo e dentro do script. O aeroporto estava movimentado, as lojas abertas, livrarias cheias e funcionários sorridentes e prestativos. Sentei perto de uma das telas de lcd que passavam reprises de jogos e telejornais.
Ouvi muitas vozes, inúmeras línguas e trajes típicos, vi roupas de todas as grifes e até gente na moda (sisc). Alguns estão passeando e outros trabalhando. Pessoas trocam dinheiro nas agências de câmbio, embalam suas bagagens nos “baggage protection”, compram no free shopping Os pais estão mostrando os aviões aos filhos pendurados nos seus pescoços de "cavalinho", nesta hora já senti falta do meu filho. As faixas dos comandantes brilham, os federais são imponentes e a Infraero continua super faturando suas obras de ampliação do aeroporto que nunca acaba. As empresas aéreas travam combates pelos passageiros e querosene é queimada na pista com marca de pneus.
As coisas começaram a mudar quando o relógio passou da doze badaladas, o aeroporto começou a esvaziar aos poucos. O vento já cortada o saguão e seu zumbido já incomodava. Os últimos vôos “normais” já informavam LAST CALL GATE 3, e funcionários das empresas aéreas corriam de um lado para outro com cadeiras de rodas, idosos e crianças desacompanhadas.
De repente como uma passe de mágica, tudo mudou. Tripulantes cortavam o saguão já com seus uniformes amassados e com cara de sono dirigindo-se aos seus fretados, funcionários de terra já não se encontravam nos check-inn (alguns vazios), as lojas fecharam, os bancos também. Os funcionários das poucas lanchonetes já eram outros e o sorrisos haviam sumido. Os restaurantes fecharam ou se transformaram em American Bares. Me encontrei sozinho numa fileira central de cadeiras e apenas notícias antigas eram vinculadas nos Lcd´s. Comecei a caminhar pelo aeroporto e visitei todas as suas ASA’S, encontrei a capela e o ambulatório. As salas especiais dos cartões de credito estão vazias de seus executivos.
O frio apertava e o saguão parecia maior, o colorido tranformou-se em cinza.
2:25 A.M coisas estranhas começam acontecer, nas cadeiras aonde outrora sentavam pessoas bem arrumadas e falantes, agora são ocupadas por pessoas sem o menor pudor, as cadeiras viram camas e agarradas aos seus pertences dormem fazendo seus roncos serem ouvidos a distância. Não se vê mais adolescentes, idosos ou a alegria de crianças perguntando "Cadê o avião papai?”. O frio aperta, não tenho mais o que rever ou escrever no laptop, minhas anotações já foram decoradas e o livro terminou.
Neste momento tentei comer alguma coisa, péssima escolha:
- Bom dia
- sim (sonolento)..
- Um chocolate quente batido por favor
- tá...
depois de 10 minutos....
- Daria para bater mais um pouco?
- não...
- como?
- Este chocolate é horrivel, não dissolve direito...
- hummm....
Não prolonguei a conversa e nem quis discutir porque o semblante daquele infeliz me desencorajou. Enquanto tomava meu quase chocolate batido, um rapaz muito estranho pegou um violão e começou a tocar a pior música que eu já tinha ouvido, aquilo me fez andar pelo aeroporto para me afastar daquele som terrivel. Foi neste momento que avistei um monstro enorme que encerava o chão, com tentáculos que se mexiam fazendo brilhar o piso. Esta geringonça era dirigida por um senhor dificil de descrever, parecia que se integrava a máquina ou talvez tivesse nascido junto com ela.
Desviei daquela máquina bizarra e tentei sentar novamente, os gordinhos dormindo nas cadeiras ao lado, mostravam sem medo seus “cofres” gigantes de calças de cintura baixa, realmente impressionante. Levantei e fui ao banheiro, lá observei funcionários simplesmente “tomando banho” na pia, escovando dentes, colocando as gravatas e passando tubos de gel nos cabelos.
Fiquei aliviado quando pude entrar na sala de espera passando pelo raio-X, lá pelo menos as pessoas parecem que vão viajar!. Já dentro do avião comendo minha barra de cereias e tomando suco de laranja, respirei fundo, agradeci ao comissário e sorri amarelo; afinal em breve estarei pousando no aeroporto de Cuiabá.
Que Deus me ajude...
Muito boa narrativa!
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